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IVM critica desatenção ao pedestre em São Paulo

A opção do prefeito de São Paulo Fernando Haddad de dar prioridade às faixas de ciclistas e de ônibus ocorreu em prejuízo das medidas de defesa dos pedestres, informa reportagem da “Folha de S. Paulo” desta segunda-feira (3/8).

O jornal cita o abandono de iniciativas como os orientadores de pedestres nos principais cruzamentos e o afrouxamento da lei que pune donos de calçadas malconservadas.

A diretora do Instituto Cidade em Movimento (IVM) em São Paulo, Luiza de Andrada e Silva, lamentou essa substituição de prioridades.

“Infelizmente, é bastante comum que as políticas públicas de mobilidade acabem privilegiando o aspecto de transporte coletivo motorizado, em detrimento dos deslocamentos de pedestres”, disse Luiza.

Ela acrescentou: “É evidente também que inaugurar ciclovia na Avenida Paulista dá mais visibilidade e é mais ‘simpático’ do que multar quem não mantém a calçada ou não respeita o cruzamento. Por outro lado, é fundamental recuperar este debate do direito universal à mobilidade mais essencial de qualquer cidadão, que é andar a pé!”

ATROPELAMENTOS

A reportagem da “Folha” diz que o fim das medidas pró-pedestre ocorreu no mesmo período em que houve expansão das faixas de ônibus.

O texto informa que a maior velocidade dos ônibus nas faixas exclusivas pode ter contribuído para o aumento de 31% nas mortes por atropelamento por aquele tipo de veículo, entre 2014 e o ano anterior (de 87 para 114 casos).

O jornal menciona ainda o fim do programa das “mãozinhas”, ou seja, dos agentes de trânsito que orientavam a travessia de pedestres nos cruzamentos, criado em 2011 pelo prefeito anterior, Gilberto Kassab.

A “Folha” nota que a queda do número de mortes por atropelamento de pedestres em São Paulo em 2012 foi de 12%, em relação ao ano anterior, início do programa (540, contra 617).

Em 2013 (primeiro ano da gestão Haddad), houve nova queda de 5% no total de mortes, que se reduziram para 514, em relação a 2012.

Mas a curva decrescente se inverteu em 2014, quando os “mãozinhas” foram finalmente abolidos por Haddad. “As mortes subiram 8%, para 555”, diz o jornal.

A “Folha” traz a opinião do engenheiro Luiz Carlos Mantovani Néspoli, que participou do programa de proteção aos pedestres na gestão Kassab e hoje é superintendente da Associação Nacional de Transportes Públicos.

“A nova ênfase é mobilidade: faixa e ciclovia, o que é louvável. O Estado, aparentemente, não consegue evoluir em duas frentes”, afirmou.

CALÇADAS

Também em 2013, a atual gestão revisou a lei de punição aos paulistanos que não cuidam das suas calçadas.

A multa de R$ 300, que antes era imediata, assim que constatada a irregularidade, passou a ser aplicada a cada dois meses.

Haddad também anistiou 6 mil paulistanos multados em 2012 por irregularidades nas calçadas. Ao mesmo tempo, arrefeceu o ritmo das multas.

As 2.484 multas aplicadas em 2013 subiram para 4.518 em 2014, mas caíram para apenas 418 até o fim de julho deste ano.

Outro projeto de apoio aos pedestre, o “Calçadas Acessíveis”, também andou pouco na atual gestão.

Dos 850 mil metros prometidos por Haddad no início da gestão, apenas 29% do total foram implantados, diz a “Folha”.

SEGURANÇA

Segundo a diretora do IVM Brasil, Luiza de Andrada e Silva, a preocupação com faixas para veículos motorizados ou bicicletas é correta, mas não substitui a atenção ao pedestre.

Ela defende uma abordagem ainda mais profunda da questão, que não se limite apenas à proteção ao transeunte, e sim leve em conta o direito do paulistano de andar a pé em sua cidade.

“Devemos ir além das questões de proteção ao pedestre, como os tais ‘maozinhas’, e focar em aspectos mais estruturais”, afirmou.

Ela defendeu estudos para implantação e recuperação de cruzamentos seguros, tendo por prioridade a visibilidade, a qualidade da sinalização, boas condições do pavimento e, principalmente, tempo hábil real.

Citou um exemplo: “Em medições realizadas pela cidade, há pontos com três segundos para travessia de pedestre. Ou seja, são cruzamentos intransponíveis para a maioria das pessoas”.

O IVM defende também que as faixas de ônibus não se transformem em novas barreiras urbanas a atravancar ainda mais a geografia da cidade.

“O desafio é fazer com que estas novas estruturas sejam oportunidade de espaços públicos inovadores e, de preferência, com valor social agregado, e não apenas corredores e paradas de ônibus”, diz Luiza.

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