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Cidades e territórios: Seminários discutem o direito à cidade e fenômenos urbanos

O Seminário Internacional Cidades e territórios: encontros e fronteiras na busca da equidade” trouxe especialistas par deabterem sobre inclusão e oportunidades nos grandes centros urbanos. O evento, promovido pela Fundação Tide Setubal em comemoração ao aniversário de 10 anos da instituição, aconteceu na Fecomercio (Bela Vista, São Paulo), no dia 14 de junho.

“Encontros e fronteiras em busca da equidade” foi o tema geral do evento, que visou discutir sobre as políticas públicas e fomentar soluções para uma menor desigualdade social nos diferentes territórios de uma cidade; foram trazidas questões importantes como a sustentabilidade, protagonismo estudantil e a cultura nas periferias. A palestra de abertura foi apresentada pela socióloga holandesa Saskia Sassen, da Universidade de Columbia (EUA).

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Saskia Sassen. Fonte: Fundação Tide Setubal

Sassen é um grande nome quanto à discussões sobre globalização e migrações urbanas. A socióloga discutiu fenômenos urbanos no século 21, muitas vezes condicionados pela renovação dos espaços públicos e principalmente, pelo poder do mercado imobiliário. Dentre os fenômenos, a gentrificação tem sido uma consequência em diversas das renovações urbanas; por exemplo, cita o High Line Park em Nova Iorque e a influência do mercado imobiliário na região, comprando edificações e transformando em edifícios de grife, a preços elevados.

Como resultado, muitas pessoas acabam sendo “removidas” dos seus bairros devido aos altos preços – movendo-se para bairros mais distantes, mais baratos e que geram custos maiores de deslocamento. Um caso que vem ocorrendo é o de empresas e a prefeitura precisam dar ajuda de custo  à funcionários para voltarem a morar perto do trabalho (como o Corpo de Bombeiros e policiais, por exemplo). Ou seja, morar longe do trabalho gera altos custos tanto para indivíduos como para as cidades.

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Mesa de debate. Fonte: Fundação Tide Setubal

O seminário seguinte, “Do Caos Urbano à cidade sustentável”, teve a participação de Ricardo Sennes, doutor em ciências políticas, Ricardo Abramovay, professor aposentado da FEA-USP e Aldaiza Sposati, coordenadora em estudos sobre desigualdade e território na PUC SP, mediados por Haroldo Torres. As discussões giraram da diversidade, das desigualdades, do apartheid social e territorial  Além do âmbito público, estimular as iniciativas locais e de microfinanciamento são ainda mais importantes para a sociedade; “Estamos perdendo recursos econômicos ao deixar de usar o valor potente de toda a população”, diz Sennes.

No período da tarde,  foi a vez do “Direito à cidade e apropriação do espaço público”, uma das três mesas redondas que ocorreram simultaneamente, com a oportunidade de acompanhar três profissionais, vindos de contextos distintos: Pablo Maturana, envolvido em projetos urbanos na cidade de Medellin (Colombia), Christian Dunker, fundador do Laboratório de Teoria Social, Filosofia e Psicanálise da USP e Jailson de Souza e Silva, criador do Observatório de Favelas do Rio de Janeiro.

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Mesa de debate: Direito à cidade e apropriação urbana. Fonte: Fundação Tide Setubal

O tema da apropriação do espaço público e como fazê-lo foi recorrente; segundo Souza, a cidade é um território em que convivemos com a diferença – e isso é o que enriquece a cultura. Mais importante é acolher em vez de segregar: “por exemplo, um cidadão da periferia sentir-se à vontade para integrar espaços de cultura no centro da cidade, independente da classe social”, diz Jailson de Souza e Silva, antigo morador do Complexo da Maré, uma comunidade do Rio de Janeiro.

Sobre Medellin, Maturana complementou a fala anterior, afirmando que a cidade deve trazer oportunidades de vivência e que urbanismo é um trabalho coletivo, não feito à longa distância por poucos profissionais.  No Brasil, a falta de opinião popular em diversas situações é retratada no exemplo dado por Jailson de Souza quanto ao teleférico da Rocinha. A voz dos moradores, que não queriam o teleférico, não foi respeitada; “os gastos são altos e há outras necessidades por infraestrutura que deveriam ser prioridade”, diz Souza.

Sobre território e segregação, Christian Dunker (USP), discute a privatização da cidade e os condomínios murados. O expoente máximo é Alphaville, concebido como “a cidade ideal”, entre muros. Habitações em um alto nível econômico, protegidas por segurança e sem as dinâmicas sociais de uma cidade: uma situação de isolamento. A escolha em se “proteger” do mundo externo traz uma sociedade que tem problemas em reconhecer o outro, que caracteriza-se agora como um “perigo”. Se esses locais privados são “ideais”, o espaço público torna-se o “risco”. A privatização dos espaços na sociedade é um dos fatores pelo qual o espaço comum torna-se abandonado, pouco utilizado.

Ao fim da discussão, a retomada do espaço público é mais do que evidente; Maturana, de Medellin, questiona as obras públicas, ainda focadas nos centros, e a falta de continuidade de projetos na alternacia de diferentes gestões políticas. Citando as periferias, Jailson de Souza conclui “A cultura é direito e constitui cidadania. Deve-se ir além da infraestrutura”.

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Foyer dos auditórios. Fonte: Fundação Tide Setubal

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