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Carro autônomo: “a realidade irá muito além da ficção”, diz especialista

As pesquisas e o debate mundial sobre o carro autônomo – dirigido por computador, sem motorista – têm no arquiteto paulistano Valter Caldana um de seus maiores entusiastas no Brasil.

“A realidade irá muito além da ficção”, previu ele, em entrevista ao Instituto Cidade em Movimento (IVM).

O diretor da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Presbiteriana Mackenzie, de São Paulo, e  membro do IVM, vê nessa nova tendência tecnológica, ainda em testes, o potencial de mudar radicalmente o transporte urbano e a forma como as pessoas se relacionam com o espaço público nas cidades.

“O carro tal como o conhecemos vai acabar, se tornará desnecessário”, afirma Caldana. E não será num futuro remoto. O “transporte motorizado robotizado”, acrescentou, começará a ser realidade já na próxima década, inclusive no Brasil.

O carro autônomo joga mais uma pá de cal sobre o conceito do automóvel como bem particular e sonho de consumo de ricos e pobres, que dominou a indústria do século 20 desde 1908, quando Henry Ford lançou o Ford Modelo T.

Caldana propõe, desde já, um ajuste de nomenclatura. Em lugar de “carro autônomo”, prefere falar em “veículo autônomo” – termo mais abrangente que pode incluir até um patinete programado para transporte individual a curtas distâncias.

OPORTUNIDADES

Ele vê o atual período de pesquisas como um momento de oportunidades para as grandes cidades brasileiras (e para as do mundo em desenvolvimento em geral).

Estas cidades, à diferença das metrópoles europeias e americanas, ainda enfrentam intensos processos de expansão e mudança urbana.

Têm, portanto, muito espaço aberto para a inovação e para iniciativas que, segundo Caldana, “custam só ousadia, não custam dinheiro”.

Um exemplo: cidades atrasadas nos programas de aterramento de fiação de rua – quase todas no Brasil – podem racionalizar os custos de abertura das valetas instalando também sistemas de conectividade e “operação inteligente” entre veículos autônomos, usuários e autoridades de trânsito.

O carro autônomo e as várias formas de transporte inteligente nas cidades são objeto de pesquisas em vários países e ganhou do presidente Barack Obama status de tema prioritário nos Estados Unidos.

PESQUISAS

google carro autônomo-divulgação google

Protótipo do autônomo do Google: carro velho, tecnologia nova

Os destaques são para o protótipo do Google, em testes na Califórnia, e as experiências de veículos adaptados de montadoras de automóveis como PSG-Peugeot-Citröen, Mercedes-Benz, Audi e General Motors.

No Brasil, O Laboratório de Robótica Móvel da USP São Carlos tem uma importante linha de pesquisa com veículos e caminhões autônomos. Há também estudos na Coppe da Universidade Federal do Rio de Janeiro.

A Universidade Presbiteriana Mackenzie pesquisa veículos autônomos em seu OpenLab, em parceria com o Groupe PSA (ex- PSA Peugeot-Citröen) e o IVM; e no grupo de estudos sobre cidades inteligentes (“smart cities”), ambos da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo.

 

caldana-www.camara.sp.gov.br

Caldana, diretor da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Presbiteriana Mackenzie: “ousar não custa dinheiro”

IVM-Que mudanças o carro autônomo poderá trazer para as cidades em geral?

Caldana- O transporte motorizado robotizado mudará a maneira como fragmentos das cidades serão construídos. Mudará também a forma como o cidadão vai se relacionar com sua cidade.

IVM– Acredita que os atuais experimentos, como o protótipo do Google e outros, têm futuro? Vale a pena investir tempo e dinheiro neles?

Caldana– Estamos saindo da ficção científica e nos aproximando da realidade – e esta realidade irá muito além da ficção. Gosto de comparar os atuais protótipos com os celulares usados pelo capitão Kirk, em “Star Trek” (“Jornada nas Estrelas”). Há 50 anos, aquilo já era um celular, mas, comparado aos celulares modernos, era de uma pobreza impressionante. Era só um telefone. Hoje, os smartphones são muito mais do que um telefone. São um meio de comunicação. Acontecerá o mesmo com o transporte autônomo. Por enquanto, o carro do Google é apenas o celular do capitão Kirk.

IVM-Quais serão as próximas etapas das pesquisas?

Caldana- Estamos ainda num estágio intermediário. O que temos hoje são apenas carros do século 20 com tecnologia nova. A transição começará quando esses veículos se conectarem com as cidades. Então, eles mudarão as cidades do século 21, assim como as carroças mudaram as cidades medievais e os automóveis mudaram as cidades do século 20.

IVM– O sr. não gosta muito da expressão “carro autônomo”.

Caldana– O horizonte do transporte robotizado é muito mais amplo. Por isso, prefiro falar em “veículo autônomo”. Por exemplo: imagine um patinete inteligente para transporte individual no centro de São Paulo. Você põe umas moedas na Praça da República e ele será programado para levá-lo pelo calçadão da Rua Sete de Abril ou da Barão de Itapetininga.

IVM- Que futuro espera o carro comum?

Caldana- O carro tal como o conhecemos hoje vai acabar, ele se tornará desnecessário. Esse enorme volume de espaço ocupado por automóveis nas grandes cidades está com os dias contados. O carro comum ainda vai existir, sim, mas da mesma forma como ainda existem os gramofones. Eles poderão ser úteis, por exemplo, para uma viagem de longo percurso. O que não tem mais sentido é você usar uma SUV enorme para levar duas crianças até a escola.

IVM– Como será o trânsito nas grandes cidades nas próximas décadas?

Caldana– O cidadão andará mais a pé e em pequenos veículos alugados de energia limpa.

IVM-Há poucos dias, a NHTSA, a autoridade nacional de segurança de trânsito nos Estados Unidos, concordou com a tese do Google de que o computador, legalmente, pode ser considerado o “motorista” de um carro autônomo. Que acha disso? As leis brasileiras também deveriam mudar?

Caldana- Acho que sim, temos de começar a debater a mudança nas leis. Temos de estar em sintonia com essa tendência.

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