Caminhabilidade e a importância da dimensão humana

A retomada do espaço público pelas pessoas é uma crescente nas metrópoles ao redor do mundo: é o elo essencial da convivência para o ser humano. Após décadas de priorização para os meios de transporte motorizados, há uma tendência de voltar a atenção para a escala humana da mobilidade. Para isso, além das atividades estimuladas pela própria população e ativistas, são necessárias ações urbanísticas e de gestão pública. Estudos e especialistas ao redor do mundo ponderam e apresentam fundamentos que demonstram uma cidade mais estimulada, ativa ao propor melhores espaços públicos e de convívio.

Em Londres, a empresa de consultoria ARUP, estudou os deslocamentos em 34 cidades ao redor do mundo, coletando informações relacionadas à automóveis, caminhadas e as taxas de acidentes, visando compreender como uma cidade pode ser mais segura aos habitantes. E ficou claro que as cidades com maior percentual de deslocamento a pé são mais seguras e receptivas aos seus moradores –  são locais que possuem algum tipo de estímulo e condições de infraestrutura que atraem pessoas, em vez de automóveis. A empresa ARUP revela também, em seu estudo “Cities Alive”, estratégias para cidades adotarem uma mobilidade mais sustentável.

Fonte: Cities Alive, ARUP  

 

No Brasil, há profissionais do meio acadêmico e arquitetos colaborando com a pauta da mobilidade mais sustentável. Por exemplo, em São Miguel Paulista, após entrar em vigor o programa “Áreas 40”, da Prefeitura de São Paulo (programa que reduz a velocidade máxima para 40 km/h nas áreas efetivas), foi realizado um projeto de requalificação urbana. Por meio de uma intervenção criativa e de baixo custo, proposta pelo escritório 23 Sul, a área para os pedestres se expandiu consideravelmente no local escolhido; o projeto trouxe adequação à acessibilidade, travessias em nível, canteiros centrais, dentre outras soluções que ajudaram a acalmar o tráfego.

A interação mais harmônica entre os meios de se locomover é um dos meios de se tornar um local aprazível às pessoas, novamente – para isso a importância de menores velocidades e uma estruturação boa aos não motorizados. Mas para um espaço público ativo, profissionais do meio urbanístico vão além: o que há nele para estimular a permanência ou o fluxo?

 

Intervenção em São Miguel Paulista, pelo escritório 23 Sul. Fonte: archdaily

Mauro Calliari, em “Caminhadas Urbanas”, cita a importância de diversos fatores importantes; dentre eles, os usos combinados – enquanto avenidas com apenas uma função – corporativa – superlotam suas calçadas e comércios locais na hora do almoço, e ficam esvaziadas após o expediente, bairros com diversas funções – moradia, serviços, institucional – apresentam uma dinâmica mais equilibrada. Um bairro com mais funções estimula com que uma pesssoa local conheça mais e pratique mais atividades nele – por consequência, torna-se mais ativo e apropriado.

A cidade, quando alia permanência à passagem, em horários variados, faz com que o espaço da rua seja vivo e mais habitado por pessoas. Habitado por pessoas em um período maior, o espaço torna-se mais seguro. Jane Jacobs, em “Morte e Vida das grandes cidades” cita que as pessoas são os “olhos da rua” – o convívio torna um espaço mais seguro do que um espaço ocioso e deserto.

Espaços públicos e ruas com infraestrutura adequada para seus habitantes (principalmente aos pedestres e ciclistas, não motorizados e mais vulneráveis) com estímulos visuais – sejam eles por atividades culturais, comerciais, dentre outros – podem ser meios para uma cidade mais humana e harmônica.

 

Intervenção em São Miguel Paulista, pelo escritório 23 Sul. Fonte: archdaily